Todos os olhos atentos
:: Segunda-feira, Março 01, 2010 ::
A natureza humana

A frustração de 1982, a raiva de 86, a falta de brilho de 90 e o tetra em 94. A tudo isso testemunhou e resistiu bravamente o desbeiçado sofá do Seu Jair. Outrora marrom, sua bege capa já estava rasgada em diversos lugares. Já a terceira geração de gatos da casa servia-se das bases de seus braços para afiar as garras, que dos netos aos avós felinos, nunca haviam sido empregadas na caça a roedores, tendo por único êxito o bambeamento do braço esquerdo. O direito balangava desgastado pelo peso de um ou outro filho que ali se sentava para assistir televisão. Surrado, suado e desprezado, era o principal mote dos intermináveis e sofridos discursos que a mulher do Seu Jair empurrava grosseiramente para dentro dos ouvidos do marido. Desgostoso com a encheção-de-saco, o patriarca resolveu atender às reclamações da esposa. Na manhã de uma segunda nublada, Seu Jair montou na sua belina a álcool 89 (uma preciosidade!) e saiu em direção ao centro, insatisfeito com o dia cinza que não ornava com o azul metálico do seu carro impecável.

Era uma quarta-feira ensolarada quando o caminhão da loja parou em frente à casa. Regada a “vivas”, “graças a deus” e “até que enfim”, grande festa foi feita na ocasião. Abriram o espumante e a cidra guardados desde o réveillon, ligaram a vitrola, chamaram os vizinhos e parentes mais próximos, prenderam os cachorros e festejaram até o dia seguinte. A noitada teve direito a pagode e churrasco. Nos mais felizes momentos que a bebida pôde proporcionar naquela ocasião, Seu Jair falava com contentamento e desenvoltura, descrevendo em todos os pormenores a maneira como assistiria à próxima copa. Veria o pentacampeonato ser alcançado ao vivo, em solo francês, deitado na parte do sofá que, se puxada e re-encaixada da maneira correta, virava uma espécie de poltronona, que fazia o sofá ficar com formato de “L”. Em meio a toda festa e agitação, o antigo sofá foi atirado meio de qualquer maneira numa parte do quintal, aonde ficou abandonado e esquecido por um bom tempo. Na área-de-serviço, o sofá tinha deixado de ser visitado por bundas e agora servia apenas de apoio para roupas passadas, toalhas lavadas e cestos com coisas, o que embora represente um grande avanço do ponto de vista humano, para um sofá é fim-de-carreira. Ocasionalmente, alguém ainda se sentava ali para fumar um cigarro escondido do marido, quando este se ausentava.

Após algum tempo a mulher do Seu Jair renovou a implicância com aquela peça móvel. Todo final-de-semana ela tentava entrar na mente do marido, convencê-lo a se desfazer daquele “estorvo”, que é como ela se referia ao substituído sofá. Este, se tivesse cérebro para poder perceber a ingratidão com a qual era tratado, há muito tinha dado um jeito de fugir, ou de suicidar-se de desgosto. Seu Jair, muito solícito, atendeu aos pedidos da esposa, mas não sem fazê-lo ao seu jeito. Ao invés de desmontar o sofá para jogar-lo fora, ou queimar-lo num terreno baldio, que era o que no fundo desejava a velha, ele optou por colocar o sofá na frente de casa. “Esse sofá tá novo! Só dá uma pregada nas perna que dura muitos ano!” - disse sem vacilar o Seu Jair. E, não se importando com os olhares de reprovação da patroa, começou a reforma-mirim. Lembrou-se do tempo de menino, quando brincava na oficina de carpintaria do avô. Após se certificar da nova firmeza adquirida pelo sofá, carregou-o para frente, com a ajuda do filho mais velho. “Com certeza que alguém leva esse sofá embora”, pensou.

Após 5 dias, o sofá ainda jazia com ar de falecido em frente à casa da família. Dia e noite Seu Jair era bombardeado por reclamações e incomodado por chiliques da esposa. Principalmente quando no terceiro dia ela pensou ter visto um rato entrando no sofá. Seu Jair, que já tinha desgastada toda a paciência por conta daquele exagero, resolveu tomar uma medida. Quando ao sétimo dia ninguém ainda houvera levado o sofá, ele, indignado, saiu de casa bufando com uma cartolina, fita crepe e um pincel atômico. Prendeu a cartolina no poste ao lado do móvel e escreveu os dizeres: “VENDE-SE”. Terminado o serviço, entrou e almoçou. Depois de comer nhoque com molho de falação-de-esposa, entrou no quarto e se jogou na cama. Dormiu antes que percebesse. Quando acordou para tomar café, o sofá não estava mais lá. Havia sido roubado.
:: Vinas - 01:52 ::
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:: Segunda-feira, Dezembro 07, 2009 ::
O triste fim de Samuel

Foi com grande sobressalto que Samuel se deu conta do acontecido: haviam esquecido de colher lenha. Num só pulo levantou-se e começou a maldizer a si mesmo pelo infortúnio. Não havia nenhuma lenha estocada! Claro, isso não seria problema, se há algum tempo não tivessem baixado a lei que proibia qualquer tipo de trabalho durante o sábado. Samuel olhou para a mãe viúva, para a mulher, o irmão mais novo e para os dois filhos. Eles não haveriam de passar fome injustamente e descabidamente durante um dia. "Isso não!" - disse Samuel em voz alta. Lá pelo terceiro passo em direção à porta, Samuel proferiu as palavras "já volto", e antes que sua esposa ou qualquer presente pudesse responder alguma coisa, ele saiu. Em casa, ficaram as crianças reclamando de fome e as mulheres, além do irmão adolescente, estes três com olhar de preocupação.

Samuel, saiu confiante em direção à floresta. Que homem haveria de condenar outro homem por tentar aquecer e alimentar sua família? Ainda mais sem trazer prejuízos à ninguém. Seus pés batiam duros e confiantes no chão empoeirado, cuja poeira levantava com o impacto e o deslocamente de ar causado pelas sandalhas. Vários passos se seguiram, até que Samuel estava embrenhado o suficiente na mata, para sentir-se seguro. Começou, então, a recolher lenha. Ainda ressabiado, tentava fazer o mínimo de barulho possível e olhava sempre ao redor. Após algum tempo, Samuel havia esquecido o perigo da sua situação ali, e como nada acontecia, sentia-se confiante. Assoviava e cantalorava enquanto terminava de recolher a lenha necessária.

Foi neste momento que, subtamente, Samuel viu-se cercado. Um grupo de rapazes apareceu do nada. Não se sabe ao certo se os jovens foram educados, ou se Samuel ofereceu resistência. Provavelmente, como se travata de um homem de coragem e consciência, Samuel reagiu ao cerco, mas acabou detido e dominado, violentamente ou não, pelo grupo que o acercara. O mesmo o levou cativo até o chefe e legislador local na ocasião, um cara chamado Moisés. O velho Moisés, que havia escrito uma lei proibindo o trabalho ao sábado, ainda não havia escrito qual seria o castigo para aquele que quebrasse tal lei. Moisés, então, foi perguntar à Deus (ou à uma caixa de ouro, ou à uma voz na sua cabeça, depende da versão da história) o que deveria fazer. Através da caixa, ou da voz esquisofrênica em sua cabeça, Moises trouxe de volta a sentença de Deus.

Samuel foi então arrastado para fora do templo, onde os membros daquele arraial pegaram pedras e o apedrejaram até a morte.

*-*-*-*-*-*

(Bíblia - Números 15:32-36)
:: Vinas - 17:54 ::
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:: Terça-feira, Abril 28, 2009 ::
Elogio do dia: "Você é uma pessoa única!"



- Eu?
:: Vinas - 09:50 ::
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:: Quarta-feira, Abril 15, 2009 ::
Resposta

"A felicidade aparece para aqueles que reconhecem a importância das pessoas que passam por suas vidas".
- Clarisse Linspector

"A tristeza também".
- Vinas
:: Vinas - 16:19 ::
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Origem das coisas



Ia numa balada dessa fácil... né?
:: Vinas - 15:43 ::
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:: Terça-feira, Abril 14, 2009 ::
Ouvi o seguinte na televisão hoje, durante uma entrevista:

"O Brasil é o único pais do mundo que tem a maior alta taxa de etanol misturado à gasolina".

O que será que a mulher quis dizer com isso?
:: Vinas - 20:08 ::
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:: Segunda-feira, Março 30, 2009 ::
O ser-humano é um anjo com corpo de macaco que quer ser formiga.
:: Vinas - 16:50 ::
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Azar de uns, sorte de outros

Depois de tomado o banho, me sentia pronto e confiante. Disse para a pessoa atrás do espelho: 'Hoje tudo vai dar certo'. Já saí do banheiro vestido, com aquele cheiro de banho me perseguindo pela casa. Passei desodorante, perfume, me olhei de novo no espelho e disse: 'Já era! Vou descer lá hoje e conversar com ela'. Aquele inspirante momento de autoconfiança me carregou para cima da bicicleta e me empurrou em direção ao centro da cidade.

Enquanto descia a avenida e passava em frente ao shopping, o evento rouba-brisa mor da noite começara. Sem a menor cerimônia, eu ouvi um grito agudo e desesperado vindo da esquina em frente, à direita, a uns 10 metros de distância. Quando voltei os olhos naquela direção, vi uma moça apavorada sendo empurrada contra a parede, enquanto um meliante gordinho e desarmado se lhe tirava a bolsa, logo em seguida subindo a rua num trote. Sem pensar, virei a bicicleta na cola do bandido, e ao passo de três pedaladas, já estava no seu encalço. Antes que ele pudesse notar minha presença, eu pulei da bicicleta, me atirando por cima das costas dele, ao mesmo tempo em que lhe aplicava uma gravata, de forma que ele caiu de bruços no chão, sem chance de esboçar reação. Um movimento “cilematográfico” disse mais tarde uma testemunha à policia.

Num salto, eu me levantei, tomei a bolsa de volta e como ele se acovardara e tentava proteger um rosto, com medo de um chute, eu lhe disse: 'Vaza, vaza... e num róbe mais!'. Ele respondeu com um aceno de cabeça, mostrando a cara pálida e nervosa, junto com os olhos arregalados. Enquanto ele subia a rua correndo e eu devolvia a bolsa, passou um carro de polícia. Como um povo já se aglomerava para se inteirar dos detalhes do acontecido e me cumprimentar, o carro de polícia parou. Expliquei para os soldados o que havia passado. Em 3 minutos, antes que eu pudesse me evadir, a polícia chega com o ladrão no carro. Resultado: Todos fomos para a delegacia, preencher a papelada do flagrante, já que eu praticamente prendi o cara.

Depois de 5 longas horas de muita conversa, brigas com meu indignado pai, ter o espírito lavado e sacudido, alguns cumprimentos pela valentia, outros convites policiais para me juntar à Força, e um sereno conselho dado pelo escrivão, eu consegui chegar em casa.

"azar de uns, sorte de outros"
No dia seguinte, eu repeti o meu "ritual da confiança" e saí de casa da mesma maneira. Sem ser surpreendido por nenhum contratempo, consegui alcançar o meu destino. Depois da facada de encontrar a pessoa sentada no colo de outrem, resolvi tomar uma dose para aliviar. Com a dose na mão, sai do bar e fui conversar na esquina. Quando volto para o bar, ponho a mão no bolso e dou falta do celular, que no dia anterior tinha ganhado cabo, fones de ouvido e uma capinha, como presente de aniversário do dono. Voltei correndo para a esquina somente para confirmar a minha maré de má-sorte, não encontrando o aparelho. Alguém vinha descendo pela rua, viu o telefone sozinho e desamparado, se comoveu e levou-o consigo. Seria engraçado se não fosse triste.
:: Vinas - 14:11 ::
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:: Quarta-feira, Março 11, 2009 ::
Renatinho e Formiga

Renatinho acordava todo dia às 05:15. Tomava café, beijava a esposa e os filhos ainda dormindo e saia para o trabalho. Pegava dois ônibus, ambos lotadíssimos. "Duro pegar busão de manhã!", pensava sempre. Pensava também nas contas atrazadas, no material dos filhos, nos bicos que tentava arranjar para preencher o final de samana, garantindo assim um "extra", que acabou virando necessário, no final do mês. Renatinho sabia de suas responsabilidades e embora os desafios fossem grandes, não desanimava da vida. Acreditava em Deus, freqüentava igreja evangélica e dizia não pertencer a este mundo. Era honesto, esforçado e trabalhador. Só não era um cidadão-exemplo, porque no Brasil exemplo é gente com grana e status social, independente do caráter ou dos vícios.

Naquele dia em específico, Renatinho havia saido de casa mais cedo. Se candidatara a algumas horas-extras, oferecidas pela fábrica em que trabalhava. Valera a pena, já que ele estava voltando para casa com o pagode no bolso. Pensava em usar esse dinheiro para enviar seu filho mais velho para o acampamento da igreja, onde passaria o carnaval longe da pecaminosidade deste mundo. - "Será uma bençã!" - dizia o pastor no microfone. Mal havia descido do primeiro ônibus e Renatinho, completamente absorvido por seus pensamentos, não reparou no carro importado que descia a rua, cujo motorista desatento tentava trocar um CD e não prestava atenção na pista. O choque foi horrível, jogando a pasta que Renatinho levava debaixo do braço para longe. Renatinho morrera in-site. Seus pertences, uma papelada sem valor, se espalharam pela avenida, sendo levada pelo vento e pelos carros que passavam.

Curiosamente, nesta mesma noite, também andava por ali um tal de Formiga. Formiga era músico e vivia atormentado por idéias depressivas, como todo artista meia-boca, e usava disso para escrever músicas que apontassem para alguma saída. Começara uma banda e logo tinha alguns fãs, que se identificavam com suas músicas, achando com elas também para si, uma saída de alguma coisa. Formiga, no entanto, estava longe de ser um exemplo. Era uma pessoa sincera congiso mesma, não acreditava em bem ou mal, para ele as coisas simplesmente "eram", como na natureza. - "O leão não sente remorso em matar a zebra" - dizia. Fazia o que tinha vontade. Acreditava apenas que a educação e o respeito eram as coisas mais importantes a serem pregadas na sociedade, e que se deve ajudar a quem se tiver oportunidade, mesmo que seja com coisas ilícitas.

Formiga saira da casa da mãe, onde e com quem morava, e andava pela rua deserta fumando um baseado. Eram 20:30 e Formiga acordara às 14:55. Era a primeira vez que saia de casa hoje. Enquanto trocava a música reproduzida no seu fone-de-ouvido, avistou um banco vazio, num bom ponto da praça. Desceu para lá e ficou observando ao longe a movimentação no ponto de ônibus. Pensou naquelas pessoas e em como elas encaram a vida. Sentiu-se de certa forma inferior a elas, pois eram capazes de viver com determinação uma vida, que para ele parecia impossível, mesmo quando se esforçando ao máximo. Pensou em escrever sobre isso. Quando sem motivo Formiga voltou o olhar para a grama ao lado do banco onde sentara, reparou num evelope que parecia cheio. Abriu e encontrou apenas dinheiro. Como não havia o que se fazer, pegou o dinheiro para si. Já no caminho volta passou no lanche, fez um corre de fumo e foi para casa fumando um cigarro, planejando uma viagem no fim de semana com o restante da grana.

Moral da história: mais vale quem Deus ajuda, do que quem cedo madruga.
:: Vinas - 09:57 ::
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:: Terça-feira, Março 10, 2009 ::
Solidão e motivação

Se olharam por um momento, começando pelo cabelo, reparando no seu formato e desarrumação, depois na sua cor. Ambos pareciam reprovar o cabelo do outro. Depois os olhares foram descendo, passando pelas marcas em formas de linhas que aparecem na testa, mais tarde reparando nos olhos e nas sobrancelhas, ambos da mesma cor castanha do cabelo nas duas cabeças. Os narizes se apontavam perfeitamente quando um deles rompeu o silêncio:

- Vô sê sincero com você: acho que cê num agüenta o baque não. Veja bem, olhe pra sua cara de acabado. Olhêra, uma tremedêra istranha que visita a sua mão de quando em quando, um zóio cada vez mais xôxo e sem vida, sem brio. E não é por menos, afinal de contas, o que vale a pena?

- Sabe, me falaram de você essa semana. Dizem que o seu pobrema é querê enchê a vida de coisas estrambólica e extraordinária, simprismente pra conseguí um sentido, uma razãozinha pra vida, que você sente que é tão sem propósito...

- E que propósito haveria de tê? Tudo termina com a morte memo. Veja, isso é injusto. Se eu tivesse a opção de nunca tê nascido, eu preferiria. É melhor nunca tê existido do que existí pra tê que morrê, porque afinal de contas, até agora ninguém me apareceu com nada mais convincente do que isso. Quero dizer, qual é a garantia de vida (seja ela qual fô) após a morte? Tudo é teoria e fé, tudo idealizado e desejado. Eu sou um home científico, não consigo acreditá em nada de boa fé, preciso sê convencido. Nasci assim e num consigo controlá. Acho que esse negócio de pós-morte tá tudo dentro da cabeça do povo.

Por mais um momento se entreolharam. Olhavam um bem fundo nos olhos do outro todo o tempo, mesmo enquanto escovavam o dente, coisa que aproveitaram para fazer nessa pausa.

- Dentro da cabeça... Mas o que é que não tá dentro da cabeça? Tudo o que se vê, se cheira, se ouve, se sente na pele ou tem gosto, com tudo essas coisa você num tem nem contato. O seu cérebro interpreta tudo e te manda as informação na forma dos sentido. Você num tá me veno, você tá veno uma imagem que o seu cérebro te mostra baseado no que ele interpretô. Logo, você não pode nem prová que nem eu nem nada existe. Tá tudo dentro da sua cabeça. Então, como você vai saber se eu to aqui fora memo ou não? Agora, você está aí. Há um EU dentro de você que vê tudo o que o cérebro interpreta. Onde está esse EU?

Aquele argumento impensado pegou de surpresa o interlocutor. Ele sempre se sentira como um prisioneiro da tristeza, guardado num calabouço onde nenhuma luz chega. Há muito deixara de crer em qualquer coisa de ordem espiritual. Agora havia, de fato, um EU que via tudo o que lhe era mostrado. Lhe pareceu plausível essa idéia.

- Num sei.

- Pois é. Num seria esse o princípio de um argumento de que alguma coisa pode existí, e esse EU pode sê o que a turma chama de alma? É craru que não é o que se espera, mas é o melhor que eu consegui pensá até agora. Além do mais, você devia pensar nos seus talento tamém. Pode sê que acreditá em si memo pode te dá mais sentido na vida.

- Será?

- Num sei. Pode sê.

Abruptamente o diálogo terminou, e de ambos os lados do espelho os interlocutores se retiraram prontamente, saindo sem se despedir verbalmente, apenas com um olhar fundo nos olhos um do outro.
:: Vinas - 18:09 ::
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:: Segunda-feira, Março 09, 2009 ::
A capoeira me presenteou

Fui enriquecido imensamente pelo jogo/luta/dança que separou a minha vida em antes e depois. Conheci cantos, mitos, lendas, histórias, história, golpes, artimanhas, música... São incontáveis as faculdades agregadas à minha vida, graças à capoeira. Entre as danças que aprendi nessa arte, está a puxada de rede.

Pescadores de pequenas vilas litorâneas costumavam pescar comunitariamente com o auxílio de uma grande rede. Porém, arrastar essa rede enorme e carregada de peixes de volta à areia não é uma tarefa fácil. Envolve planejamento e trabalho coordenado. Se a rede for puxada desordenadamente, ela não capturará os peixes, que terão uma boa chance de escapar. Para que a rede seja puxada de maneira correta, utilizam-se atabaques marcando o ritmo da puxada, com um toque tradicional característico, e um canto. Os homens, então, dançam coordenadamente, respondendo ao côro e seguindo o ritmo do atabaque, enquanto puxam a rede.

Quando o trabalho termina, todas as pessoas envolvidas no trabalho podem pegar peixes. Após estes, todas as pessoas que assistem ao evento também podem pegar peixes da rede, garantindo assim os melhores peixes a quem trabalhou e comida a todos.

:: Vinas - 18:47 ::
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:: Domingo, Março 01, 2009 ::
As itapevianas e o incêndio
(história real)

O grande mal daquela família não era o fato de que tinha medo de tudo. Tampouco, o excesso de superstição e crendice, cujas simpatias quase impossibilitavam as tarefas diárias. O problema maior era o sono. Isso mesmo, o sono. Não era um sono normal e amigável, como aqueles de fim de tarde. Era quase uma anestesia geral, um desligamento sistemático e desproporcional, que costumava atacar quando se acendia a televisão. Bastava ligar o aparelho e qualquer atividade manual ou social se tornava impraticável. Os diálogos desapareciam e eram substituídos por roncos, chupação de baba e eventuais engasgadas. Não sei qual a explicação para esse mal, mas asseguro que existe e era constatável; se manifestava notadamente nas mulheres do clã.

Cada membro tinha seu estilo. Dona Derna, a matriarca, costumava levar a mão ao queixo e ir caindinho de lado, até que o braço do sofá a amparasse, numa pose quase de múmia pré-colombiana.

D. Ísis - D. Derna - D. Elzy
Dona Isis, a filha mais velha, iniciava na posição do Buda (o semblante também não era tão diferente), até que a boca se abrisse por inteiro. Então, ela costumava pescar e rodopiar em cima do seu eixo, como um joão-bobo, explorando e desbravando progressivamente os limites do equilíbrio.

Dona Elzy, a mais nova, cruzava os braços deixando a cabeça cair para trás, até a nuca alcançar o encosto do sofá. Isso deixava sua boca completamente aberta. Acordava com sede, que julgava ser uma predisposição genética para diabetes.

De longe, o de estilo mais interessante era o Indalécio, caipira paulista de Faxina (atual Itapeva), cunhado da Dona Derna. Veterano de 32, servira na infantaria, onde ajudara a engrossar as trincheiras bandeirantes nas divisas com o Paraná. Ressentido até o fim da vida com os Matarazzo, traidores de São Paulo, vivia solteiro nos fundos da casa. Como bom soldado, não admitia ser pego de guarda baixa. Nem dormindo. Ele fechava os olhos e ia caindo vagarosamente para frente, com os braços também caídos, até que uma mão alcançava o chão. Ao sentir o toque amadeirado do taco, ele acordava num solavanco e imediatamente tentava dissimular, refazendo o nó do cadarço como descarte. Repetia o ato diversas vezes.

Certa noite, os quatro se sentaram em frente à televisão para a novela das oito. Todos estavam dormindo, cada um da sua maneira particular. A novela já havia acabado, mas ainda a parentalha insistia no sono. Após os comerciais, começou um filme de ação. Um carro é perseguido pela polícia em alta velocidade. Depois de diversas tentativas de deter o criminoso, a polícia resolveu tirar ele do jogo fechando o gatuno, que subiu à calçada e atingiu um posto de gasolina. Houve uma imensa explosão, acompanhada de um barulho estranho, como o que alguém engasgando.

Após o engasgo, Dona Isis deu uma chupadinha no canto da boca e, já que acordada, aproveitou o ensejo para espiar a novela. - "AAAAAAAAGGGGGHHHHH!!!". O alarme da primogênita despertou a todos, que mesmo desconhecendo a razão do nervosismo, também, levantaram-se aos gritos.

- A televisão tá pegano fogo! - berrou Dona Isis.

Ao olharem para as chamas de um posto atingido por um maloqueiro de Massachussets, dado o medo, a surpresa, a confusão ao despertar e a intensidade do nervosismo de Dona Isis, os presentes não souberam diferenciar a realidade da ficção. Entraram em desespero, gritando ainda mais e forçando a porta da sala. No calor do momento, onde três fêmeas primatas disputavam uma maçaneta, as damas não perceberam que Indalécio havia se ausentado. Só se deram conta quando ele voltou, trazendo no rosto abigodado os olhos verdes arregalados e na boca o grito da coragem. Em suas mãos, um balde cheio d'água.

Quando Maquinão (marido de Dona Isis) chegou do trabalho, quis saber por que a televisão estava queimada.
:: Vinas - 20:49 ::
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:: Sábado, Fevereiro 28, 2009 ::
Deusolivre
(baseado em fatos reais)

Mazinho era muito afamado no Cerrado. A gente sempre via ele batendo perna de domingo na feira da rua Zé de Alencar. Freqüentava o Bar da Isabel, na João Pessoa, e se não me falha a memória, morava na Abolição, entre o campinho e a igreja dos mórmons. Várias tarde eu vi ele também num barzinho ou outro da General Carneiro, ou bêudo na quermesse na praça da igreja São José. Uma vez eu vi ele até na tradicional procissão do Cerrado, que sai do Lar Santo Antônio, segue pela Imperatriz Lopoldina, João Pessoa e General Carneiro, finalmente chegando à praça da igreja, onde então ele melava o pé. Nunca conversei muito com ele, mas era uma figurinha conhecida na região.

Certa vez deu-se o pior e o tal Mazinho dobrou as canela. Quem encontrou o homem instirado foi a muié dele, a Creuza Cabelerêra, que pensou que o bico só tava dormindo. Já chegou sortano os cachorro, chamando ele de vagabundo, de bêudo, mas o homem num respondia. Tava lá distendido no sofá, em prena tarde de segunda, com aquela cara xôxa. Quando a Creuza agarrou ele pelos braço, se deu conta que Mazinho tava fria. Mais fria que noite de júlio. Ela saiu imediatamente sartandinha de fasto e gritou: - DEUSOLIVRE! Ficara a dúvida: Mazinho tava bem? Ela reparou que o homem tava cinza e cheio de piririca no pescoço e nas venta. Encostou mais uma vez no seu braço e teve certeza que tava mesmo fria. Creuza Cabelerêra já se acometia de gastura, mas num tinha certeza de nada porque o homem era um pudim. No fim das conta, quem chegou e declarou a defunteza do Mazinho foi o Binho, garoto do bairro, que entrou na casa, viu a cena, encostou no presunto e laçô a sentença: - Xééé.. já era!

Depois de muito conto, chamaram o OFEBAS e resorveram levar ele o quanto antes pra fazer o velóreo, essas coisa. No dia seguinte cedinho, o pessoal já se derigia pro Cemitério da Saudade. Essas coisa você sabe como é que é: o carro do OFEBAS vai andandinho na frente, bem devagarinho, e o pessol na emenda, até chegar no cemitério. O Covêro, que já tinha preparado tudo pro enterro, tava lá dando uma boca-de-pito com um adêvogado da cidade, que também tava esperando o falecido. Creuza Cabelerêra, que tinha tido um ataque de bixa no velóreo, já vinha já no primeiro carro da comissão, logo atrás do defunto. Quando a tropinha vinha chegando, o Covêro virou pro adêvogado e disse: - Castele! O adêvogado começou a campear arguma coisa nos borso, rancou um pente framengo, arrumou o topete e fechou o paletó. A turminha desembarcou e resorveram entrar todo mundo junto ao mesmo tempo no cemitério, ao redor do caixão. Nesse exato momento, Mauro, conhecido corneteador do bairro, que tava ajudando a carregar a jaca, ouviu alguma coisa estranha que parecia vir do caixão. Ele bateu um zóio meio desgueio pro povo, achou que era alguém que tava chorano e seguiu viagem. Foi aí que começou o furdunço. Quando tavam abaixando o paletó pra dentro do buraco, Mazinho abriu o zóio. Alguém virou pro padre, catou e disse meio gaiteando, assim como quem perde o fôrgo: "Acho que ele abriu o zóio!". O padre num queria dá tréla, mas como a curiosidade era mais grande, deu uma pausa de alguns segundos na oração e mirou o olhar pra direção do presunto. Um "Deusolivre!" escapuliu do beiço ecresiástico, fazendo todo mundo olhar pro caxão. Nesse momento, Mazinho se dá conta de que tão tentando enterrar ele vivo e grita: "EUEM!" sartano do caixão, meio de fianco, ispaiando frôr e rosa pra tudo quanto era lado. O genterê, que num é besta, deu o pira de lá! Sairam tudo correndo, montaram nas carona e sartaram de banda. Até o Covêro sumiu. No cemetério ficou só o Mazinho, ainda meio mortecido, com os cambito meia mole, gritando feito um retardado e catando frango atrás do povo.

Pelas tarde, quando Mazinho vira a esquina, a rua fica deserta. Todo mundo olhando pelas fresta das janela. Mazinho bate na porta de casa:

- Abre a porta, Creuza!
- Sai daqui ô mardição!
- Sô eu Creuza, seu marido.
- Eu num tenho marido defunto, ô.
- Mas eu tô vivo...
- Vivo uma pinóia, ô. Eu vi ocê durinho aí...
- Abre a porta quieu esprico.
- Poderguê! Num abro i num abro!

De paletó, gravata, descarço (porque defunto não se enterra de sapato), cansado porque tinha vindo de apé desdo cemitério, e vendo que se insistisse com a muié ia acabar no maior quiprocó, começou a se ajeitar pra posar alí mesmo no jardim, sob os olhares de medo e espanto que escapoliam das janela e das portas. Foi aí que ele teve uma idéia. Num sarto, deslanchou rua acima, correndo feito um num-sei-o-quê, virou na esquina da igreja dos mórmons e sumiu por uns minutos. Vortou dentro de um carro de polícia. Mas aí você sabe, neguinho vê luzinha de polícia, vem todo mundo correndo pra ver que que tá acontecendo. Com a presença da polícia, Creuza Cabelerêra se viu forçada a abrir a porta, e depois de quase tomar uma sova do Mazinho a noite terminou em paz. Você pode achar que terminou aí a história de catalepsia mais famosa do Cerrado, mas se engana. Depois do acontecido, mudaram o apelido do Mazinho de Mazinho pra Jamorreu, porque era o único do bairro que já tinha morrido e ainda tava lá. Motivo de riso no Bar da Isabel, Jamorreu viveu até bem véio.
:: Vinas - 11:56 ::
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:: Terça-feira, Fevereiro 24, 2009 ::
Num dia chuvoso

Tudo aconteceu muito rápido.

- É um assalto! - gritou ele exaltado, passando pela porta da agência.

Houve um certo desconcerto na fila. Uns ergueram as mãos, uns se jogaram ao chão e outros ficaram imóveis olhando. Alguns dos que ergueram as mãos, ao verem que outros se jogaram ao chão, se constrangeram e abaixaram as mãos, mas não se deitaram. Outros, mais velhos, orgulhosos e impassíveis, continuaram austeros, com os braços erguidos e olhando para frente. Essa situação confundiu também o assaltante.

- Senta aí todo mundo no chão e bota a mão na cabeça!

Todos obedeceram.

O seu Figueira (fazia questão de ser chamado pelo sobrenome) observou em voz baixa para a moça ao seu lado:

- É o quarto assalto em dois meses.
- O meu segundo! - respondeu a moça sorrindo.

O assaltante parecia aflito e gritava para que a funcionária esvaziasse logo o caixa e enchesse sua sacola.

Tudo parecia perfeito. A sacola estava cheia de dinheiro quando o gatuno começou a ensaiar a sua saída. Nesse momento, uma viatura da polícia estaciona em frente ao banco. Desesperado ele grita:

- Você, você e você! Entrem no elevador.

O seu Figueira, a moça e a caixa se encaminharam ao elevador com as mãos na cabeça. Enquanto esperavam o elevador, antes que os policiais ainda tivessem entrado na agência, ele grita:

- O resto pode ir embora, mas se alguém abrir o bico pra contar o que aconteceu e onde eu estou, eu mato essas três pessoas aqui! Uma a uma! - o seu último "u" saiu exaltado demais, algo como duas oitavas acima do normal, o que fez os clientes do banco segurarem as risadas.

A moça engoliu em seco. O seu Figueira pensou na aposentadoria que nem chegou a tocar e a caixa tentava fingir que aquilo tudo era normal, para não assustar os clientes. O elevador chegou, todos entraram e no momento em que a porta se fechou, entraram na agência os policiais, sem saber o que estava acontecendo. Todos seguiram as recomendações do assaltante e não disseram nada aos policiais, que depois de tirarem um extrato na máquina eletrônica, com uma certa dificuldade até, saíram.

No elevador:

- Que andar? - pergunta a caixa.
- Qualquer um! - cada "q" que o assaltante pronunciava era um perdigoto (para quem não sabe, uma gota de saliva cuspida enquanto se fala) que voava no rosto da moça.
- Aperte o segundo, só para sairmos desse andar. - sugeriu o seu Figueira.

Aceita a proposta, apertaram o botão. O elevador andou cerca de 2 metros e travou. Desesperado, o assaltante força a porta até abri-la. Parede. O elevador parou exatamente num ponto onde uma parede tampava completamente a saída.

- E agora? - pergunta a caixa.

O ladrão começa a chorar.

- Eu era motorista. Morava no oitavo andar de um prédio. Um dia, eu estava discutindo com a minha esposa, quando, num momento de raiva, peguei o revólver e dei dois tiros na minha mulher!
- Ó! - disseram os três reféns.
- Ela morreu? - pergunta o seu Figueira.
- Não, eu errei os tiros, ou ela desviou, sei lá, mas uma das balas saiu pela janela e acertou uma pessoa.
- Como assim? - pergunta a moça.
- Um vizinho do prédio em frente. - afirmou com a certeza da experiência o seu Figueira.
- Nem um nem outro. O Vandemir (a gente chamava ele de Vandinho) havia algum tempo, estava tentando o suicídio. Naquele dia ele tomou coragem e pulou pela sacada do prédio. Na queda, uma das minhas balas acertou em cheio a cabeça dele.

Silêncio no elevador.

- Bom, a partir dai, eu não consegui mais me perdoar e virei assaltante.
- E a sua esposa? - perguntou a caixa.
- Se separou de mim. O Vandinho, que Deus o tenha, era amante dela.

Todos começavam a sentir pena do pobre assaltante. Todos, menos o seu Figueira, homem de moral e princípios.

- O senhor está me dizendo que deseja que o amante da sua esposa esteja em bons braços?
- Sim, coitado, ninguém merece uma morte tão frustrante.

As moças estavam comovidas com a história do assaltante e começavam a sentir raiva da rabugentisse do seu Figueira.

- Isso é absurdo! Isso é inaceitável! Em que mundo vivemos?!?

No momento em que o velho gritava, as duas mulheres e o assaltante estavam se segurando para não atacar verbalmente o velho insensível. O corpo do velho, que já não gostava dele também há algum tempo, tratou de dar o estopim para a confusão. Num momento de maior exaltação, o esfíncter do velho falha, e ouve-se uma flatulência seguida de uma tosse (idéia imediata que ele teve para disfarçar o peido).

Aquilo foi o cúmulo. Mesmo assim, com o mal-cheiro e tudo, o velho continuava seu discurso quando repentinamente foi calado à força pelas moças, para surpresa até do assaltante. Elas dominaram o velho e pediram a meia-calça que o assaltante usava como máscara. Ele deu. Em questão de momentos, claro que com a ajuda do assaltante, o velho estava imobilizado e com a meia-calça como máscara.

- Agora o revólver. - pediu a moça.
- Toma. - entregou ele sem fazer a menor cerimônia.

As moças estranharam a reação, esperavam ter que convencê-lo a dar a arma.

- Ela está descarregada. Não queria correr o risco de ferir ninguém.
- Ó! - disseram as moças, que também repararam que ele tinha olhos claros e era alto.

Aumentava a indignação do velho cada vez mais.

Mais tarde, algum cliente avisou a polícia, que conseguiu descer o elevador. Os três reféns ganharam uma recompensa do banco por ter rendido o assaltante. O velho, ainda sem a aposentadoria, foi levado preso.
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Esperando a herança

Dois jovens esperam a morte do pai para venderem a fazenda e irem curtir a vida na cidade. Humor negro do grupo Kuumeli.

:: Vinas - 20:00 ::
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